O espelho tem as marcas do tempo bem vincadas: está riscado, baço, um pouco quebrado.
Em contrapartida, ela está nova, jovem, fresca "que nem uma alface", diz, e ri, a olhar para si no espelho velho da casa de banho.
Não sabe como vai usar os longos cabelos negros. Têm algumas ondas rebeldes. Sacode a cabeça e sente o cheiro do champô, uma leve fragrância a jojoba, que lhe provoca uma sensação de prazer e de conforto.
Mas não. Pensa: "levo-o apanhado, assim pró negligé e depois solto-o, que nem cena de filme". Solta uma gargalhada longa e sonora.
O gancho que comprou ontem é perfeito para o efeito dramático que estava a preparar. Era pequeno, com umas pedras brancas pequenas, discreto. Perfeito!
A Carta
Vem com cheiro a outra terra. A carta amassada e ligeiramente rasgada é aberta, cuidadosamente.
Sabe a areia, a mar, a ele.
Retiro a carta do envelope e desdobro-a, devagar, com muito cuidado. Era pequena, poucas palavras.
Por vezes, o fim é assim: curto, cirúrgico.
The end.
Sabe a areia, a mar, a ele.
Retiro a carta do envelope e desdobro-a, devagar, com muito cuidado. Era pequena, poucas palavras.
Por vezes, o fim é assim: curto, cirúrgico.
The end.
Bolinhas
O Bolinhas era um carro muito especial.
Foi o nosso primeiro carro e eu e a minha irmã decidimos desde logo que iríamos gostar muito dele.
E por vários motivos: era muito pequenino e redondinho. Parecia uma pequena joaninha cinzenta. E depois era mesmo muito especial: as portas (só tinha duas) abriam ao contrário, da frente para trás. Não conhecíamos mais ninguém com um carro assim. E isso fazia de nós também pessoas especiais.
E depois o Bolinhas ajudou a melhorar os nossos fins-de-semana e as nossas férias. E de que maneira!!
Antes do Bolinhas entrar nas nossas vidas, os passeios eram feitos em camionetas grandes, cheias de gente, pessoas que não conhecíamos. Não era mau, até era divertido, com as cantorias começadas pelas nossas avós e continuadas por todos, a plenos pulmões e sorrisos rasgados nas caras de todos. Até dos motoristas!
Mas agora podíamos escolher o caminho, colocar a cassete que queríamos no carro, parar várias vezes para esticar as pernas e ver outros sítios… e ao fim de semana já não ficávamos apenas em casa a ver televisão ou a brincar na rua. Já podíamos ir todos juntos – eu, a irmã Liliana, o pai Arnaldo e a mãe Rosinha – fazer coisas que antes não dava para fazermos, como ir ao Continente, o primeiro hipermercado do país e que tinha aberto há pouco tempo em Matosinhos. Tinha tantas coisas boas que nunca tínhamos visto que achávamos que aquele era o melhor sítio do mundo!
Mas não. Havia outros sítios muito mais especiais, como o Portugal dos Pequenitos e o Jardim Zoológico, por exemplo. E só pudemos ir lá porque o Bolinhas nos levava, sempre animado.
E quando não passeávamos, eu e a minha irmã ADORÁVAMOS limpá-lo. Primeiro porque queríamos que ele estivesse sempre bonito, para que todos pudessem ver que carro especial que ele era. Depois porque era muito divertido quendo chegávamos à parte de o lavar de mangueira. Acabávamos sempre completamente encharcadas! Mas também porque o pai Arnaldo deixava que ficássemos com tudo o que encontrássemos lá dentro. E como ele não usava porta-moedas, eu e a minha irmã conseguíamos sempre encontrar as moedinhas com que comprávamos os melhores rebuçados do mundo, os flocos de neve!!!
Porém, com o passar dos anos, o Bolinhas começou a ficar cansado. Começou a fazer mais barulho quando andava, não começava a trabalhar “à primeira”, principalmente no Inverno, e precisava sempre de muita água e óleo para poder andar. Passava muito tempo na oficina a mudar e a consertar peças. E a mãe Rosinha começou a reparar que o Bolinhas estava a precisar de mais gasolina do que era costume. Estava a ficar velhinho, era o que era. E a precisar de parar e descansar. Estava na idade da reforma.
E um dia, o pai Arnaldo disse-nos que tinha encontrado outro carro, mais novo, em melhor estado, e que o ia comprar. E por isso que ia vender o Bolinhas a uma oficina, que o ia restaurar e transformá-lo em carro de colecção.
NÃO!
NÃO!
NÃO!
Eu e a irmã Liliana dissemos que não, que ele era um membro da família, que gostávamos muito dele. Que tínhamos éramos muito felizes os 5 juntos e que não queríamos ficar sem ele. Que ele era especial e diferente e único. E que mais nenhum carro era assim. Que mais nenhum carro poderia substituir o Bolinhas.
Mas, o pai Arnaldo estava decidido. Era o melhor a fazer. O Bolinhas já não aguentava mais. E era muito caro mantê-lo. Não havia mais nada a fazer.
O dia em que dissemos adeus ao Bolinhas foi muito triste. Eu e a minha irmã chorámos muito, muito. Agarradas às portas especiais, não queríamos deixá-lo ir. Ainda não éramos grandes o suficiente para perceber que era a melhor coisa a fazer.
Durante um dia não falámos com o pai Arnaldo. Estávamos magoadas. Mas acima de tudo, achávamos que nunca mais íamos ter aqueles momentos de grande diversão. Que nada iria voltar a ser igual. Que as viagens deixariam de ter tanta piada.
Mas uma bela manhã o pai Arnaldo chega com o novo carro. Não tinha portas especiais, era castanho e não era redondinho. Eu e a minha irmã, à porta de casa, de braço dado, olhámos para aquele monte de chapa muito desconfiadas. Ele teria que nos conquistar!
Até que o pai Arnaldo tocou a buzina. Era bem mais potente que a do Bolinhas, que sempre foi rouca e na estrada, por vezes, os outros carros não nos ouviam. Um ponto a favor.
Depois, o pai Arnaldo convenceu-nos a entrar e a experimentar os estofos. Eram muiiiito mais confortáveis que os do Bolinhas. E conseguíamos saltar neles muito mais alto. E cheirava bem. Por último, o pai Arnaldo mostrou-nos o melhor: o rádio era muito mais bonito! As minhas cassetes davam ainda mais alto e sem ruído e conseguíamos apanhar mais estações de rádio! Eu e a minha irmã olhámos uma para a outra e decidimos dar as boas vindas a este novo elemento. Mas, antes dissemos ao pai Arnaldo e à mãe Rosinha que o Bolinhas seria sempre o NOSSO carro.
Ok, disseram eles.
- E agora? – pergunta o pai Arnaldo – que querem fazer?
- Passear!!!
E assim fomos, os quatro, a cantar a plenos pulmões (pronto, eu e a minha irmã a cantar, porque o pai Arnaldo e a mãe Rosinha só ouviam e sorriam) e a encontrar mais coisas positivas em relação a este novo elemento.
- E qual vai ser o nome deste carro? – pergunta o pai Arnaldo.
- Bolinhas não! – diz a irmã Liliana.
Sim, porque Bolinhas só poderia haver um.
E eis que, depois de uma lomba, e de eu e a minha irmã termos saltado nos estofos confortáveis e de termos rido à gargalhada, decidimos:
- Vai chamar-se Borguinhas, porque é uma borga! Rimos muito, muito.
Mais tarde percebemos que afinal o pai Arnaldo não tinha sido insensível e mau quando deu o Bolinhas. Na verdade, tinha sido muito amigo do nosso 1º carro, que estava agora numa oficina muito chique, a ser muito bem tratado. E, acima de tudo, o novo dono não o fazia andar muito. Que era o que o Bolinhas precisava.
E, como o Borguinhas estava em bom estado, e não precisava de arranjos e não ia para a oficina, o pai Arnaldo e a mãe Rosinha podiam gastar mais dinheiro em passeios. E começamos a passar férias mais longe, em locais onde o Bolinhas não podia chegar. Sítios com muito verde, e água, e animais bonitos e cascatas…
Criamos novos momentos, novas lembranças. E quando, anos mais tarde, o pai Arnaldo voltou a trocar de carro, eu e a irmã Liliana já não chorámos. Porque sabíamos que o pai Arnaldo e a mãe Rosinha iriam-nos dar sempre o melhor. E que nós podíamos sempre guardar no nosso coração os momentos que passaram e tínhamos a grande sorte de podermos criar novos momentos. Diferentes, é certo, mas muito felizes também!
Passos
O Passos. Lá ia ele, rua abaixo, com passadas pensadas, cuidadas.
A bengala, nova, tinha sido comprada na loja da Anita. Era linda, com o punho de marfim e a madeira envernizada.
O Passos andava a três tempos. Primeiro a perna direita, a melhor que tinha. Depois a esquerda, mais curta, e, logo a seguir, a bengala. Caminhavam juntas, a perna e a bengala.
O Passos seguia, feliz. A Julieta está à sua espera, com o vestidinho novo comprado na Baixa.
Ele chega. Ela sorri.
E recebe-o assim, com um beijo e uma flor. Vermelha. De amor.
A bengala, nova, tinha sido comprada na loja da Anita. Era linda, com o punho de marfim e a madeira envernizada.
O Passos andava a três tempos. Primeiro a perna direita, a melhor que tinha. Depois a esquerda, mais curta, e, logo a seguir, a bengala. Caminhavam juntas, a perna e a bengala.
O Passos seguia, feliz. A Julieta está à sua espera, com o vestidinho novo comprado na Baixa.
Ele chega. Ela sorri.
E recebe-o assim, com um beijo e uma flor. Vermelha. De amor.
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